Pequenos movimentos: quando cuidar de si começa por uma escolha intencional

 Tenho pensado bastante sobre mudanças.

Não necessariamente aquelas grandes mudanças que a gente anuncia para todo mundo, como “agora vai”, “segunda-feira começo”, “dessa vez vou até o fim”. Estou falando de mudanças pequenas, quase silenciosas, que começam muito antes da ação. Começam quando a gente para e se pergunta se aquilo que está tentando mudar realmente é algo que deseja para si.

Porque será que queremos tanto mudar algumas coisas?

Será que é porque aquilo realmente nos incomoda? Porque faria bem para a nossa vida? Ou porque, de alguma maneira, fomos convencidas de que deveríamos ser diferentes?

Às vezes queremos emagrecer porque todo mundo ao nosso redor está falando sobre emagrecimento. Queremos determinada roupa porque é a tendência do momento. Queremos fazer a unha toda semana, ter o cabelo sempre impecável, uma rotina de skincare, uma casa perfeitamente organizada, acordar às cinco da manhã, beber três litros de água, fazer academia...

E, quando percebemos, estamos tentando construir uma versão de nós mesmas que talvez nem tenha sido uma escolha nossa.

Por isso, antes de qualquer movimento, talvez exista um movimento ainda menor: parar.

Parar e se perguntar: eu realmente quero isso? Isso faz sentido para mim? Estou fazendo por mim, pelo meu bem-estar, ou estou tentando me sentir pertencente?

Acho que essa última pergunta é especialmente importante.

Vivemos em busca de tantas coisas e, às vezes, nem paramos para conversar com aquela voz interior e perguntar se é isso mesmo que preenche o nosso coração. Se isso combina com a nossa vida. Se isso tem algum propósito para nós ou se estamos apenas tentando alcançar uma imagem de como deveríamos ser.E quando entramos no assunto autoestima, essa conversa fica ainda mais profunda.

Porque autoestima não nasce pronta. Ela pode ser construída, desconstruída e afetada por muitas coisas ao longo da vida. Pode ter relação com a infância, com a forma como fomos tratadas, com experiências que carregamos durante anos, com um relacionamento que nos fez duvidar de nós mesmas, com mudanças no corpo, com a maternidade ou simplesmente com uma fase da vida em que, aos poucos, deixamos de nos enxergar.

Às vezes nem existe um acontecimento específico.

A gente simplesmente foi se deixando para depois.

E talvez seja justamente por isso que eu acredito nos pequenos movimentos.

Não estou falando de acordar amanhã decidida a mudar tudo. Estou falando de observar a própria vida com um pouco mais de atenção e perceber onde existe uma pequena coisa que poderia ser diferente.

Vou dar um exemplo meu. Eu nunca me considerei uma pessoa muito vaidosa. Durante muito tempo, eu até achei que isso significava que eu simplesmente não ligava para aparência. Hoje percebo que é um pouco mais complexo do que isso.
Eu tenho uma relação muito particular com o consumismo. Para mim, não faz muito sentido ter a roupa da moda, o look da vez, dezenas de sapatos, uma quantidade enorme de produtos ou sentir que preciso estar fazendo a unha toda semana para estar bem cuidada.Tendo a ser uma pessoa mais essencial. Gosto de ter o que faz sentido para mim.

E precisei entender que não adianta eu tentar forçar uma versão mais “vaidosa” de mim simplesmente porque existe uma expectativa de que uma mulher bem cuidada precisa ser assim.

Isso não faz parte de quem eu sou. 

Mas, ao mesmo tempo, também percebi que talvez eu estivesse confundindo vaidade com consumo.Porque vaidade pode ser muito mais do que comprar coisas ou seguir tendências.Pode ser olhar para o espelho e respeitar quem está refletindo ali. Honrar o próprio corpo.Nutrir esse corpo, movimentá-lo, cuidar da pele, do cabelo, descansar, vestir uma roupa que faça você se sentir bem.

E isso, para mim, começou a fazer sentido.Foi aí que encontrei um ponto de partida mais intencional.

Se percebo que não estou nutrindo meu corpo como gostaria, por exemplo, não preciso decidir que a partir de segunda-feira minha alimentação será perfeita. Talvez eu precise apenas olhar para a minha rotina e perceber onde estou dificultando as coisas para mim mesma.

Se sei que, nos momentos de cansaço ou fragilidade, acabo comendo aquilo que está disponível, talvez uma pequena mudança seja não comprar tantos alimentos ultraprocessados para deixar ao alcance.

Se percebo que chego no meio da semana sem nada organizado para comer, talvez seja pensar em algumas opções de marmita ou deixar algumas coisas preparadas.

Não porque existe uma rotina perfeita que eu deveria seguir, mas porque estou criando um ambiente que facilita a escolha que quero fazer.

E isso vale para muitas outras coisas.

Se eu não estou bebendo água como deveria, talvez eu não precise começar com uma meta impossível. Posso colocar um lembrete no celular, usar um aplicativo, deixar a garrafa sempre ao meu alcance ou encontrar alguma estratégia que funcione dentro da minha rotina. Eu mesma já falei sobre isso no texto “Eu preciso beber mais água: como criar o hábito sem transformar isso em obrigação”, porque percebi que precisava encontrar uma maneira possível de fazer isso.

Se não estou cuidando do meu cabelo e isso está me incomodando, a pergunta não precisa ser “por que eu não consigo fazer tudo o que deveria?”. Talvez seja: o que eu consigo fazer?

Não consigo hidratar toda semana? Talvez a cada quinze dias.

Não consigo ir ao salão com frequência? O que consigo fazer em casa?

Preciso de um corte que facilite a minha rotina?

Existe algum cuidado simples que eu consigo incorporar?Percebe a diferença?

A pergunta deixa de ser “como eu deveria me cuidar?” e passa a ser “como eu consigo me cuidar dentro da vida que tenho hoje?”

Para mim, existe uma diferença enorme entre essas duas perguntas.

Porque quando pensamos no que deveríamos fazer, aparece uma lista enorme de cobranças. Quando pensamos no que podemos fazer, começa a aparecer espaço para escolhas.E talvez seja justamente isso que eu gostaria que você levasse deste texto.

Você não precisa consertar a sua vida inteira.Não precisa acordar amanhã como uma nova mulher. Muito menos precisa comprar uma agenda nova, vinte produtos, uma roupa para treinar, começar uma dieta, montar uma rotina de cinco da manhã e ainda conseguir cumprir tudo perfeitamente. 

Talvez você só precise observar.Observar o que está incomodando.Observar o que realmente importa.Observar aquilo que você quer porque faz sentido para você e aquilo que você quer apenas porque aprendeu que deveria querer.

E, depois disso, escolher uma coisa.

Uma só.

Talvez seja beber mais água.

Talvez seja voltar a caminhar.

Talvez seja cuidar do cabelo.

Talvez seja olhar para a alimentação.

Talvez seja marcar aquela consulta que você está adiando.

Talvez seja comprar uma roupa que realmente tenha a ver com você.

Talvez seja colocar um limite em alguém.

Talvez seja simplesmente reservar alguns minutos do dia para fazer alguma coisa que você gosta.

Não existe uma lista correta.

Existe o que faz sentido para você agora.

E é por isso que eu queria terminar este texto propondo uma coisa muito simples.

Pegue um papel. Pode ser uma folha qualquer, o bloco de notas do celular, o verso de uma conta, não importa. Não transforme nem isso em mais uma tarefa perfeita. 

E responda, com sinceridade:

O que tem me incomodado em mim ou na minha rotina ultimamente?

Agora pergunte:

Isso realmente importa para mim?

Ou estou querendo mudar porque alguém, alguma tendência ou alguma expectativa me fez acreditar que deveria ser diferente?

E, se a resposta for sim, se você perceber que aquilo realmente importa para você, pergunte:

Qual é o menor movimento que posso fazer para começar?

Não o maior.Não o mais bonito.Não o mais radical.Ou mesmo "instagramavel"

O menor.

Porque talvez você não consiga mudar uma vida inteira hoje. Mas consegue mudar uma pequena escolha.E uma pequena escolha repetida começa a construir outra realidade.

Talvez autoestima seja um pouco disso também.

Não é acordar um dia e finalmente se amar completamente. É começar, aos poucos, a demonstrar para si mesma que você merece atenção. Que seu corpo merece cuidado. Que seus desejos merecem ser ouvidos. Que sua vida também merece espaço.

Autoestima e autocuidado podem ser um trabalho diário de desconstruir, às vezes, uma vida inteira em que aprendemos a oferecer amor para todo mundo, menos para nós mesmas.

Então, se você não sabe por onde começar, não comece tentando mudar tudo.

E faça por você.Não para parecer com alguém.Não para pertencer.Não porque disseram que era assim que uma mulher deveria ser, mas porque, depois de se ouvir, você percebeu que é isso que faz sentido para você.

E talvez seja aí que começa uma mudança de verdade.

Fique com meu abraço. 💜




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