Fisioterapia pélvica: por que olhar para essa parte do corpo?




Foi em uma consulta de pré-natal que ouvi falar sobre fisioterapia pélvica pela primeira vez.Até então, para mim, fisioterapia era algo relacionado a uma lesão, uma dor nas costas ou à recuperação depois de alguma cirurgia.

De repente, surgiram novos termos: assoalho pélvico, preparação para o parto, períneo, exercícios, respiração, relaxamento…

E pensei: “Espera, isso também faz parte da gestação?” 😅

Talvez você também tenha passado por algo parecido.

A obstetra indica fisioterapia pélvica. Alguém fala sobre preparação para o parto. Outra pessoa comenta que fez acompanhamento no pós-parto.

E, quando começamos a pesquisar, descobrimos um universo inteiro que muitas vezes nunca tinha sido apresentado para nós.

Mas a fisioterapia pélvica não é algo exclusivo da gravidez.

Ela faz parte de uma área mais ampla da fisioterapia voltada à saúde da mulher e pode atuar em diferentes fases da vida, incluindo questões relacionadas à incontinência urinária, algumas dores pélvicas, prolapsos e outras disfunções do assoalho pélvico.

A proposta deste texto não é dizer que toda mulher precisa fazer fisioterapia pélvica.

Mas talvez seja um convite para conhecermos melhor uma parte do nosso corpo sobre a qual, muitas vezes, sabemos muito pouco.

Afinal, o que é o assoalho pélvico?

De forma simplificada, podemos imaginar o assoalho pélvico como uma estrutura formada por músculos e outros tecidos localizada na parte inferior da pelve.Ele participa do suporte dos órgãos pélvicos e está relacionado a funções urinárias, intestinais e sexuais.

E aqui existe um ponto importante:

saúde pélvica não significa apenas “fortalecer”.

Assim como qualquer outro grupo muscular, o assoalho pélvico precisa funcionar adequadamente.

Em algumas situações, pode ser necessário trabalhar força e resistência. Em outras, o foco pode envolver coordenação, consciência corporal ou relaxamento.

Por isso, sair fazendo exercícios aleatórios encontrados na internet nem sempre é a melhor resposta.

Uma avaliação individual consegue observar como aquela musculatura está funcionando e orientar o tratamento de acordo com cada necessidade. Diretrizes clínicas inclusive destacam a importância de avaliar tanto a capacidade de contrair quanto de relaxar a musculatura antes de individualizar um programa de exercícios.

E durante a gestação?

A gravidez traz mudanças importantes para o corpo.Existe o crescimento do útero, alterações posturais, hormonais e uma nova distribuição de peso. Tudo isso acontece enquanto o corpo se adapta para abrigar e, posteriormente, dar à luz a um bebê.
Dentro desse contexto, a fisioterapia pode atuar com diferentes objetivos, dependendo da necessidade de cada gestante.
Entre as possibilidades estão orientações relacionadas ao movimento, à postura, à consciência corporal e ao assoalho pélvico, além do acompanhamento de sintomas específicos. A atuação da fisioterapia em saúde da mulher também abrange gestação, parto e pós-parto.

Mas aqui eu gostaria de fazer uma pausa importante:fazer fisioterapia pélvica não significa, necessariamente, “se preparar para ter parto normal”.

A saúde do assoalho pélvico vai além da via de parto.

É sobre conhecer o próprio corpo e cuidar da sua funcionalidade dentro daquele momento da vida.

Fisioterapia pélvica não é apenas para gestantes

Talvez esse seja o ponto que mais me chamou atenção quando comecei a pesquisar sobre o assunto.

A fisioterapia voltada à saúde pélvica pode estar presente em diferentes fases da vida da mulher.

Ela pode fazer parte da prevenção e do tratamento de situações como:

  • incontinência urinária;
  • incontinência fecal;
  • algumas situações de prolapso de órgãos pélvicos;
  • constipação relacionada a determinadas disfunções;
  • algumas dores pélvicas;
  • determinadas disfunções sexuais;
  • gestação e pós-parto;
  • recuperação após algumas cirurgias e tratamentos.

A atuação e o tratamento dependem da causa e da avaliação individual.

Ou seja: não precisamos esperar engravidar para começar a olhar para a nossa saúde pélvica.

“Mas eu perco urina só quando espirro…”

Muitas mulheres convivem com pequenos escapes de urina e acabam normalizando a situação.

Depois de uma gravidez.Depois de um parto.Ao correr.Ao pular.Ao tossir.

Mas ser algo frequente não significa que precise simplesmente ser aceito como inevitável.
A incontinência urinária pode ter diferentes causas e tratamentos. O Ministério da Saúde inclui a fisioterapia pélvica entre as possibilidades de tratamento, dependendo do tipo e da causa do problema.

Para mulheres com incontinência urinária de esforço ou mista, diretrizes clínicas recomendam o treinamento supervisionado dos músculos do assoalho pélvico como uma das abordagens de primeira linha.

E isso é importante porque talvez aquela perda de urina que você considera apenas um “incômodo normal” mereça, pelo menos, uma conversa com um profissional de saúde.

E se eu não consigo investir em fisioterapia pélvica agora?

Essa também é uma realidade.

Nem sempre temos acesso a um profissional especializado naquele momento. Às vezes o custo não cabe no orçamento, não existe atendimento próximo ou simplesmente existem outras prioridades financeiras.E eu não queria que essa postagem terminasse com a sensação de:

“Pronto, agora descobri mais uma coisa importante que não consigo fazer.”

A ideia é justamente o contrário.

Conhecimento também é uma forma de cuidado.

Mesmo sem acompanhamento individual, existem hábitos relacionados à saúde pélvica que podem ser observados no dia a dia.

Isso não substitui uma avaliação ou tratamento quando necessário, mas pode ser um ponto de partida para prestar mais atenção ao próprio corpo.

Algumas atitudes simples que podem ajudar



Observe seus hábitos urinários

Segurar a urina por longos períodos de forma frequente não é uma estratégia ideal. Por outro lado, também não precisamos ir ao banheiro preventivamente a todo momento apenas para “garantir”.

Se existem sintomas como urgência frequente, aumento importante da frequência urinária ou escapes, vale procurar orientação para entender o que está acontecendo. Estratégias comportamentais e o treinamento da bexiga podem fazer parte do manejo de alguns tipos de sintomas urinários.

 Cuide do intestino

A constipação e o esforço frequente para evacuar também merecem atenção.

Alimentação adequada, hidratação e bons hábitos intestinais fazem parte do cuidado geral e podem ser relevantes para pessoas com disfunções do assoalho pélvico.

Respire e perceba o seu corpo

Uma prática simples de consciência corporal pode ser reservar alguns minutos para uma respiração tranquila, sem prender o ar, percebendo o abdômen, a caixa torácica e a região pélvica.

O objetivo não precisa ser “treinar forte”.

Pode ser simplesmente começar a perceber uma região do corpo que muitas vezes passa completamente despercebida.

Contração e relaxamento são partes do processo

Quando uma mulher recebe orientação adequada para realizar exercícios do assoalho pélvico, não é apenas a capacidade de contrair que importa.

O relaxamento e a coordenação também fazem parte de uma boa função muscular. Por isso, programas supervisionados são preferíveis quando existe um sintoma ou uma necessidade específica.

E um lembrete importante: não use interromper o jato de urina como exercício de rotina. Se você tem dúvidas sobre como identificar ou exercitar essa musculatura, o ideal é buscar orientação profissional.

Quando vale procurar ajuda?

Existem situações em que não é interessante apenas tentar resolver sozinha com vídeos ou exercícios da internet.

Vale conversar com um profissional de saúde se você apresenta, por exemplo:

  • perda involuntária de urina;
  • sensação de peso ou “bola” na região vaginal;
  • dor pélvica persistente;
  • dor durante relações sexuais;
  • dificuldade importante para evacuar;
  • alterações urinárias persistentes;
  • sintomas após a gestação ou o parto que estão afetando sua qualidade de vida.

O ponto não é se autodiagnosticar.

É entender que existem profissionais e possibilidades de tratamento para questões que muitas mulheres acabam sofrendo em silêncio.

Talvez a fisioterapia pélvica seja, antes de tudo, sobre conhecer o próprio corpo

Eu comecei a conhecer esse universo porque estava grávida.Mas, quanto mais pesquisava, mais percebia que esse conhecimento poderia ter chegado muito antes.Não porque todas nós precisamos de tratamento.Nem porque agora precisamos adicionar mais uma obrigação à nossa rotina, mas porque entender o próprio corpo nos dá mais autonomia.Às vezes, o cuidado será procurar um fisioterapeuta especializado.Em outros momentos, será conversar com seu médico ou médica sobre um sintoma.E, em alguns casos, o primeiro passo será apenas parar e perceber:

“Talvez isso que eu achava normal seja algo que merece atenção.”

Cuidar da saúde pélvica não precisa ser mais uma cobrança.

Pode ser apenas mais uma forma de nos conhecermos.

💜 Um pequeno lembrete

Você não precisa esperar a gravidez, o parto ou um sintoma piorar para conhecer melhor o seu assoalho pélvico.

E também não precisa transformar esse conhecimento em mais uma obrigação.

Comece pela informação. Observe seu corpo. E, quando necessário e possível, procure orientação profissional.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação individual de profissionais de saúde. Em caso de sintomas, dor ou dúvidas, procure orientação adequada. 



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