A maternidade recente já vem acompanhada de muitas mudanças.
Mudanças no corpo, nos hormônios, no sono, na rotina, nos relacionamentos e,
muitas vezes, na forma como nos enxergamos.E, justamente quando estamos
tentando entender tudo isso, parece que todo mundo tem uma opinião sobre como
devemos fazer:
“Você não acha que está pegando muito no colo?”
“Deixa chorar um pouco.”
“Na minha época…”
“Você acostumou mal.”
“Eu faria diferente.”
E, às vezes, mesmo quando pedimos ajuda, parece que junto
com ela vem um pacote de opiniões que não solicitamos. A intenção deste texto
não é dizer que devemos nos fechar para o mundo ou rejeitar toda ajuda.Afinal, ninguém
deveria atravessar o puerpério sozinha.
A própria Organização Mundial da Saúde destaca que uma
experiência pós-natal positiva envolve informação, tranquilidade e apoio, e que
parceiros, familiares e a comunidade fazem parte dessa rede de cuidado. Mas
existe uma diferença importante entre apoio e invasão.
E talvez aprender a reconhecer essa diferença seja uma das coisas mais
importantes para quem está vivendo a maternidade recente
Você não precisa saber tudo
A chegada de um bebê pode trazer uma expectativa quase
impossível: a de que a mãe deveria saber naturalmente o que fazer, mas você
está conhecendo uma pessoa nova.E também está vivendo uma nova versão de você
mesma, énormal ter dúvidas, mudar de ideia, ouvir uma sugestão e decidir que
aquilo não faz sentido para a sua família.
Pedir ajuda não significa entregar todas as decisões.
Você pode dizer:
“Obrigada pela preocupação. Vou pensar sobre isso.”
E pensar sobre isso pode, inclusive, significar não fazer.Nem
toda sugestão precisa virar discussão.Nem toda opinião precisa de uma
justificativa.
Rede de apoio ou rede de palpites?
Essa talvez seja uma pergunta importante.Uma rede de apoio
não precisa concordar com todas as suas escolhas, mas deveria conseguir
respeitá-las.
Apoio pode ser alguém que chega e pergunta:
“O que você precisa?”
Pode ser uma pessoa que lava uma louça enquanto você toma
banho.Que segura o bebê para você dormir. Que traz uma comida. Que escuta sem
tentar corrigir cada decisão.
Por outro lado, quando a ajuda vem acompanhada
constantemente de críticas, comparações ou tentativas de assumir o controle,
talvez seja necessário rever os limites.
E aqui existe uma frase que eu acho importante:
Pedir ajuda não significa abrir mão da sua autonomia.
Você pode precisar de apoio e, ainda assim, continuar sendo
a pessoa responsável pelas decisões relacionadas ao seu filho e à sua família.
“Mas eu só quero ajudar…”
Muitas vezes, os palpites realmente vêm de pessoas que amam
o bebê e acreditam estar ajudando, mas intenção e impacto não são exatamente a
mesma coisa.Uma fala pode ter sido feita com boa intenção e, ainda assim,
aumentar a insegurança de uma mãe que já está vivendo um período de muitas
mudanças.Talvez seja por isso que a comunicação seja tão importante.
Em vez de guardar tudo até explodir, pode ser necessário
dizer, com calma:
“Eu sei que você quer ajudar, e agradeço por isso. Mas neste
momento estou tentando entender o que funciona para nós.”
Ou:
“Prefiro que você pergunte antes de fazer dessa forma.”
Ou, simplesmente:
“Obrigada, mas vamos fazer diferente.”
Você não precisa transformar cada limite em uma discussão
familiar.
O parceiro(a) também precisa entender o que está
acontecendo
A chegada de um bebê não transforma apenas a rotina da
mãe.Ela muda a dinâmica do casal.Mas existe uma diferença importante: a pessoa
que gestou e deu à luz também passou por transformações físicas e hormonais
importantes, além da recuperação do parto e, em muitos casos, da amamentação e
da privação de sono.
Por isso, comunicação não deveria começar apenas quando
alguém já está no limite.Conversar durante a gestação ou nos primeiros dias
sobre expectativas, divisão de tarefas e necessidades pode ajudar.
Não no sentido de criar um contrato perfeito ,porque um bebê
provavelmente vai bagunçar qualquer planejamento. ^^
Mas para que o parceiro ou parceira entenda que o pós-parto
não é apenas:
“Agora temos um bebê para cuidar.”
É também:
“Temos uma pessoa que acabou de passar por uma
transformação enorme e também precisa ser cuidada.”
A saúde emocional no pós-parto merece atenção, e a falta de
apoio do parceiro e da família aparece entre os fatores associados a maior
vulnerabilidade para problemas como a depressão pós-parto.
Às vezes, uma conversa simples pode começar assim:
“Eu não preciso que você resolva tudo. Mas preciso que
você entenda o que está acontecendo comigo.”
Nem sempre você precisa responder na hora
Essa é uma dica que eu gostaria de deixar especialmente para
as mães que, como eu, talvez fiquem pensando depois:
“Nossa, eu devia ter respondido aquilo…”
Nem sempre precisamos.
Quando estamos cansadas, emocionalmente vulneráveis ou
simplesmente sem energia para uma discussão, podemos encerrar o assunto. Uma
resposta neutra também é um limite.
Algumas opções:
- “Vou
conversar sobre isso com o pediatra.”
- “Estamos
observando o que funciona para nós.”
- “Obrigada
pela sugestão.”
- “Por
enquanto, vamos fazer assim.”
- “Entendo
sua experiência, mas estamos fazendo diferente.”
Você não precisa convencer todo mundo de que está certa.
A maternidade não deveria ser uma defesa de tese todos os
dias.
Cuide também do que você consome
E aqui entram não apenas os palpites presenciais.As redes
sociais também podem se transformar em uma enorme fonte de comparação.
Você entra procurando uma dica e, quando percebe, já
assistiu a:
- uma
mãe dizendo que seu bebê deveria dormir de determinado jeito;
- outra
dizendo que aquilo é completamente errado;
- alguém
mostrando uma rotina perfeita;
- outra
pessoa dizendo que, se você fizer diferente, estará prejudicando seu
filho.
Respira.
Informação é importante.Mas informação em excesso também
pode gerar ansiedade.
Talvez seja necessário selecionar melhor quem você acompanha.Silenciar
conteúdos que fazem você se sentir constantemente inadequada.E lembrar que você
está vendo apenas alguns minutos da vida de outras pessoas.
Não precisa transformar cada vídeo em uma nova obrigação.
Mas e quando o emocional está muito pesado?
O puerpério pode envolver oscilações emocionais e um período
intenso de adaptação. Mas sofrimento persistente ou intenso não precisa ser
enfrentado em silêncio.Se a tristeza, ansiedade, desesperança ou exaustão estão
interferindo significativamente na sua vida, ou se surgirem pensamentos de
machucar a si mesma ou o bebê, procure ajuda profissional e atendimento de
saúde imediatamente. A depressão pós-parto é uma condição tratável e não
representa fraqueza ou falha como mãe.
No Brasil, o acompanhamento da saúde da mulher no puerpério
também deve considerar aspectos físicos, emocionais e sociais.
Talvez o maior desafio seja aprender a confiar um pouco
mais em si
Não estou dizendo que a mãe sempre sabe tudo, não se sabe, e
na verdade ninguém sabe. Vamos errar, aprender, mudar de ideia e pedir ajuda.
Mas existe uma diferença entre estar aberta para aprender e viver
constantemente acreditando que outra pessoa sabe mais sobre a sua realidade do
que você, é você conhece seu contexto, no dia a dia é você quem está observando
seu bebê. Você pode buscar informação confiável e profissionais de saúde quando
necessário.E pode ouvir uma sugestão sem ser obrigada a segui-la.
Talvez, aos poucos, a maternidade também seja esse
exercício: ouvir o mundo, mas aprender a ouvir a si mesma no meio de tanto
barulho.
Para finalizar
Você pode aceitar ajuda sem aceitar todos os palpites. Pode
mudar de ideia. Colocar limites.Pode dizer “não sei” e buscar informação.
E pode lembrar que cuidar de um bebê não significa deixar de cuidar da
pessoa que está se tornando mãe.
Se você quiser contar seu relato, está precisando desabafar, estou aqui para te ouvir. Você não está sozinha.
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